Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da UFS: investigando, preservando e valorizando o patrimônio cultural submerso
Parte da História da Humanidade está relacionada aos ambientes aquáticos. Mares, oceanos, rios, lagos e áreas alagadas foram, ao longo dos séculos, espaços fundamentais para a circulação de pessoas, mercadorias, conhecimentos e culturas. Nesses ambientes encontram-se remanescentes materiais de diferentes períodos históricos, como embarcações naufragadas, estruturas portuárias, antigos assentamentos humanos, objetos perdidos, Paisagens Culturais Marítimas e Maritórios. Estudar essas evidências é o desafio da Arqueologia de Ambientes Aquáticos, campo de conhecimento que busca compreender as relações históricas entre as sociedades humanas e os espaços aquáticos. É importante destacar que o mergulho autônomo, embora seja importante como uma ferramenta para a aquisição de dados, não é uma condição obrigatória para pesquisadores/as, permitindo o acolhimento de uma grande gama de pessoas no campo de estudos.
Na Universidade Federal de Sergipe (UFS), essa área de investigação tem como importante referência o Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos (LAAA), vinculado ao Departamento de Arqueologia (DArq) e ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ), desde 2009. O Laboratório, dirigido pelos professores e pesquisadores Gilson Rambelli, Leandro Duran e Paulo Bava de Camargo, desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão universitária voltadas ao estudo, à documentação e à preservação do Patrimônio Cultural Subaquático (PCS) existente em ambientes marítimos e fluviais. É importante salientar que esses e outros pesquisadores/as atuam como orientadores de pós-graduação na linha de pesquisa homônima de Arqueologia de Ambientes Aquáticos, o que torna a UFS possivelmente a única universidade sul-americana a ter uma linha específica de estudos nessa área.
A atuação do LAAA parte de uma compreensão ampla do PCS. Um naufrágio, por exemplo, não representa apenas os restos de uma embarcação: constitui um contexto arqueológico capaz de revelar informações sobre técnicas construtivas, navegação, comércio, relações de trabalho, conflitos, práticas cotidianas e diferentes aspectos da vida das sociedades do passado. Da mesma maneira, antigas estruturas portuárias, equipamentos de navegação e vestígios de atividades desenvolvidas nas margens dos rios e do litoral são importantes fontes para compreender a formação histórica dos territórios. Isso vale dizer que, tanto as estruturas oitocentistas e novecentistas portuárias de Aracaju, quanto o navio do século XIX, afundado em Neópolis ou o sítio depositário de Bom Sucesso, em Poço Redondo são remanescentes arqueológicos igualmente importantes para serem pesquisados.
Em Sergipe, a diversidade de ambientes costeiros e fluviais oferece inúmeras possibilidades de investigação. O litoral, os estuários e, especialmente, a bacia do rio São Francisco constituem espaços privilegiados para pesquisas – a título de ilustração, juntando a extensão da costa com a da margem sergipana do rio São Francisco, teríamos pouco menos de 350 km de margem banhada por imensos corpos d’água. E nem foram incluídos nessa conta simples os rios Real, Vaza-Barris, Sergipe/ Cotinguiba e o Japaratuba, os principais do estado a desaguar no oceano.
Além da produção de conhecimento científico, o laboratório possui um importante compromisso com a formação acadêmica – graduação e pós-graduação – e a divulgação do conhecimento arqueológico. A aproximação entre universidade e sociedade é fundamental para sensibilizar as comunidades sobre a importância do PCS e estimular sua participação nas ações de reconhecimento e preservação. A equipe do LAAA sempre está engajada em palestras de divulgação da importância do PCS, bem como desenvolveu uma cartilha de ampla divulgação, vinculada aos seus trabalhos no Baixo Rio São Francisco.
Um dos grandes desafios da Arqueologia de Ambientes Aquáticos é combater a depredação e a exploração não científica dos sítios arqueológicos submersos. Esses lugares são testemunhos históricos únicos e não renováveis. Sua destruição representa a perda definitiva de informações que poderiam contribuir para a compreensão de nosso passado e do passado dos povos originários que nos antecederam e que também contribuíram para a formação da nação brasileira.
O Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe reafirma, assim, a importância da pesquisa arqueológica para além dos limites tradicionalmente associados à terra firme, buscando realizar estudos que, muitas vezes, necessitam de intervenções tanto dentro quanto fora d’água. Ao investigar os vestígios materiais preservados sob as águas e nas paisagens costeiras e fluviais, o LAAA contribui para revelar histórias, reconhecer identidades e ampliar a compreensão sobre as relações entre humanidade, cultura e ambientes aquáticos.